terça-feira, 20 de julho de 2010

Falta inovação tecnológica da indústria farmacêutica brasileira

Déficit da balança comercial do setor de saúde cresce 55% no ano. Ano após ano, o déficit da balança comercial brasileira na área de saúde cresce e revela uma preocupante dependência do mercado externo para a aquisição de remédios e equipamentos médicos consumidos no país. Na avaliação do Ministério da Saúde, a situação poderia levar a um desabastecimento em caso de forte desvalorização do real.

As importações do setor somaram US$ 11,3 bilhões no ano passado, valor que representa 8,8% do total das compras internacionais, que alcançaram US$ 127,6 bilhões. Já a participação das exportações da indústria farmacêutica em todo o volume vendido pelo Brasil ao exterior se mantém estagnado em torno de 1,5% há dez anos. De 2000 a 2009, o déficit comercial dessas transações subiu 155%.

No primeiro semestre deste ano, as importações de remédios e equipamentos médicos totalizaram US$ 7,2 bilhões, um crescimento de 45% em comparação com o mesmo período de 2009, percentual semelhante a alta de toda a importação brasileira (44%). O total de US$ 1,2 bilhão em exportações registrado de janeiro a junho representa 11% de aumento sobre igual intervalo do ano passado (bem abaixo do total exportado, que cresceu 26%), resultando em um déficit comercial 55% maior, de US$ 6 bilhões.

Reinaldo Guimarães, secretário de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, reitera a gravidade dessa dependência. "Se o real se desvaloriza de maneira importante a saúde quebra no dia seguinte, não haverá dinheiro para comprar medicamentos que hoje são importados", afirmou ao Valor.

Segundo ele, o Brasil também fica vulnerável nas negociações com as indústrias farmacêuticas estrangeiras, de quem o governo federal compra 30% dos remédios do mercado nacional, que são destinados a abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS). "Se o mercado é dependente demais das importações passa a viver ao bel-prazer da imposição de preços, principalmente dos remédios mais caros e tecnologicamente mais sofisticados, que são produtos monopolísticos, protegidos por patente", acrescentou.

Segundo Guimarães, o desequilíbrio entre importações e exportações no setor de saúde é fruto da abertura comercial da década de 1990 e, mais recentemente, do aumento do consumo com a entrada de classes sociais de menor renda no mercado. "As farmoquímicas brasileiras não aguentaram a competição estrangeira e praticamente desapareceram. Além disso, o mercado farmacêutico e de prestação de serviços de saúde vêm crescendo num ritmo muito forte [30% em 2009], e como não há produção nacional grande parte do setor é alvo de importação."

Para Marcos Ferraz, professor do Centro Paulista de Economia da Saúde da Universidade Federal de São Paulo (CPES-Unifesp), o problema está no lento processo de inovação tecnológica da indústria farmacêutica brasileira. "Conforme cresce a demanda do mercado interno, o déficit comercial cresce, porque a nossa produção ainda é muito pequena e, na maioria das vezes, pouco qualificada, sem diferenciais", explica.

Tamanho de mercado também faz diferença, acrescenta Nelson Mussolini, vice-presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo (Sindusfarma). "Só em remédios, o faturamento anual do mercado interno é de US$ 18 bilhões. Em apenas um semestre, o laboratório transnacional Novartis faturou US$ 23 bilhões. Ainda falta escala para mobilizar empresas para produzir matérias-primas e investir em pesquisa para gerar novos remédios."

Dados do setor mostram que déficits da balança comercial de remédios não são exclusividade brasileira, porque a produção dos medicamentos mais consumidos no mundo está concentrada na China, Índia e parte na Suiça. Mussolini diz que a reversão desse quadro pode levar uma década. "Para descobrir uma nova molécula farmacêutica, que irá resultar em um novo medicamento, é preciso investimento de oito, dez anos. E é preciso caixa para sustentar esse investimento, o que ainda não é o caso da indústria nacional."
Valor20.7.10

segunda-feira, 5 de julho de 2010

As certezas da inovação e da sustentabilidade

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Marcos regulatórios mais restritivos vêm se consolidando como elementos importantes na defesa do ambiente

A falta de investimentos em inovação pode nos levar a questionar a consistência e a continuidade dos bons resultados da economia brasileira nos próximos anos. Ou seja, nosso desenvolvimento econômico não está assegurado apesar da justificada onda de otimismo atual. De fato, os números comprovam nossa modesta posição em Inovação. A última Pintec 2005 (Pesquisa de Inovação Tecnológica/IBGE) revelou que menos de 5 mil empresas fazem pesquisa e desenvolvimento de forma contínua no Brasil demonstrando esforço consistente e estruturado em Inovação. Isso é insuficiente frente às ambições do Brasil.

As soluções para alavancar o esforço insuficiente em P&D nas empresas brasileiras têm apontado para a necessidade de políticas públicas mais ousadas e abrangentes. É certo que os programas de governo de estímulo à Inovação têm se mostrado relativamente limitados nos seus resultados embora sejam extremamente amplos e consistentes nos seus propósitos. Mas, em que pesem as sempre possíveis e desejáveis evoluções das políticas públicas, um fato novo pode estar surgindo no ambiente da Inovação com impactos significativos, tanto no posicionamento concorrencial das empresas brasileiras no cenário internacional quanto na formulação de políticas públicas para o País.

Segundo pesquisa realizada da Câmara Americana de Comércio (Amcham) com suas associadas, uma em cada três empresas tem a Sustentabilidade como um dos elementos essenciais para seus negócios. O levantamento foi apresentado em novembro de 2009, em São Paulo, no evento em homenagem aos vencedores do Prêmio Eco 2009, iniciativa realizada em parceria pelo Valor e pela Amcham. Para os organizadores do evento, inovação com foco na sustentabilidade foi o principal aspecto dos 89 trabalhos de 75 empresas que concorreram ao prêmio. Fica clara, assim, a forte ligação entre sustentabilidade e inovação. Essa proximidade não é casual. Na prática, os dois conceitos são indissociáveis. E, o percurso da inovação pode, finalmente, beneficiar-se desse atalho representado pela sustentabilidade. Esperemos, também, que esse novo caminho seja menos sujeito a ciclos e instabilidades.

Toda atividade econômica impacta o meio ambiente. No entanto esse assunto vem assumindo importância crescente nos últimos tempos por duas razões principais: pela dimensão e abrangência cada vez maior desse impacto e pela conscientização da população dos impactos causados pela atividade humana ao meio ambiente. Esse contexto estimula ações que reduzam ou mesmo eliminem impactos ambientais indesejáveis. Marcos regulatórios mais restritivos vêm se consolidando como elemento importante nesse caminho rumo à sustentabilidade. Mas, é interessante notar também que as empresas estão se antecipando às exigências legais e desenvolvendo soluções completas que garantam o respeito ao ambiente e à preservação do planeta.

As legislações tendem a acompanhar essas iniciativas apenas "a posteriori", induzidas por empresas pioneiras. Surge aí o primeiro elo objetivo entre sustentabilidade e inovação. Desenvolver novas soluções que atendam o bem estar das pessoas e o respeito ao ambiente exige um esforço consequente em inovação. Fazer isso antecipando tendências é extremamente desafiador e representa uma abordagem genuinamente inovadora. Esse esforço vem tomando espaço nas empresas e delineando um novo paradigma de atuação. A maioria das empresas inovadoras está mantendo, ou mesmo aumentando, seus esforços em sustentabilidade e, consequentemente, em inovação, porque percebem criação de valor nessa atividade. Recente levantamento realizado entre associadas da Anpei sinalizou que mais de 70% das empresas mantiveram ou aumentaram seus investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (PD&I) em 2009.

Outro ponto de convergência entre inovação e sustentabilidade que vale a pena destacar é o da diferenciação. A inovação, tanto quanto a preocupação com a sustentabilidade, permitem desenvolver produtos diferenciados para o atendimento das necessidades do mercado e de aplicações pioneiras de forma sustentável, normalmente com ganhos ambientais importantes. Esses produtos promovem a imagem das empresas e alimentam o círculo virtuoso de agregação de valor, estimulando mais desenvolvimentos pioneiros e diferenciados.

Além disso, o Brasil aparece, no contexto da discussão sobre sustentabilidade, de forma privilegiada devido à grande competitividade de seus recursos naturais. Mas, a simples disponibilidade de recursos não é suficiente para garantir uma posição destacada nesse contexto no longo prazo. É necessário ir além e efetivar o potencial dos recursos renováveis em ações e resultados concretos. Para tanto, novas tecnologias devem ser desenvolvidas e disponibilizadas. Surge, assim, por meio da sustentabilidade, uma nova demanda tecnológica por inovação. A possibilidade de desenvolver rotas alternativas a partir de insumos sustentáveis e sem a geração de resíduos é a terceira e definitiva interface que integra inovação e sustentabilidade.

A preocupação com a sustentabilidade pode lançar a inovação para um novo e diferenciado patamar colocando-a, definitivamente, na ordem do dia da competitividade e emprestando a ela alguma estabilidade. Podemos, então, à luz dessa discussão que não se esgota aqui, enumerar algumas certezas e convicções:

Quem diz "Sustentabilidade", diz "Inovação". Não haverá sustentabilidade, principalmente ambiental, sem esforço consequente e estruturado em inovação.

Tanto sustentabilidade quanto inovação são fundamentais para garantir a competitividade das empresas no contexto global.

A incerteza crescente no mundo é caldo de cultura e ambiente propício para a Inovação.

Carlos Calmanovici é engenheiro e presidente da Anpei - Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Imitar e inovar

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Com o título "Imitação é mais valiosa do que inovação", Oded Shenkar, diretor da Ford Automóveis e professor da Universidade de Ohio, em entrevista para a "Harvard Business Review", enfatizou como a imitação é altamente relevante para o avanço tanto dos negócios quanto da ciência. Sua defesa baseou-se em levantamento sobre modelos de negócio e pesquisas científicas que detectou o valor fundamental da imitação para gerar os bons resultados alcançados.

Entre os casos estudados destacaram-se as experiências da rede Walmart (que se inspirou no Korvette); do McDonald ' s (que se baseou no White Castle); no Visa, MasterCard e American Express, que teriam seguido as trilhas desbravadas pelo Dinners Club; e ainda a Apple, que quase sempre trabalha aprimorando ideias lançadas por outras empresas.

Os resultados da pesquisa rejeitaram as visões simplistas que relegam a imitação a um posto de menor prestígio na atividade empresarial e na academia. Na pesquisa básica, tida como o universo nobre da geração do conhecimento, o pesquisador, em vários momentos, precisa apreender e repensar a tese de outros para evoluir em sua trajetória. Nas empresas, processo semelhante leva as empresas a incorporarem inovações disponíveis no mercado, para que sejam capazes de reprocessar e relançar produtos e serviços de nível superior.

Shenkar tomou a imitação como uma atividade complexa, que envolve ousadia e criatividade. Na economia, sem essa capacidade de absorção do novo, muitas vezes gerado por outras firmas, não haveria, por exemplo, o que simplificadamente se denomina de "transferência de tecnologia". As entrevistas de Steve Jobs (da Apple) sobre o iPad, ao relatar seu débito com o Kindle da Amazon (leitor de livro), ou o modo como incorporou e foi além das primeiras experiências de MP3 players, ou o sucesso do iPhone (anos após a existência do celular), ilustra o esforço criativo necessário para aperfeiçoar bens já disponíveis no mercado. Claro, é preciso estar em sintonia com as novas tendências para reprocessar produtos com charme e inteligência. Mas para isso o segredo nem sempre está na busca de alta tecnologia ou de inovações de ruptura, e sim na qualidade dos funcionários, da engenharia, na facilidade com que o conhecimento e a informação fluem no interior das empresas. Em ambientes abertos ao novo, a imitação não é vista como subproduto, mas como requisito para a inovação; não é estigmatizada, mas desejada.

Para países emergentes como o Brasil, cujas economias não atuam na fronteira do conhecimento, a imitação, longe de mostrar-se trivial, é atividade-chave para dinamizar a pesquisa e a competitividade das empresas. Principalmente porque pode viabilizar processos de aprendizagem tecnológica e de capacitação que seriam praticamente impossíveis de outra forma.

São vários os estudos que mostram como a China mantém há décadas um acelerado crescimento em muito baseado na imitação. O Brasil também fez - e ainda faz - uso intensivo desse recurso, ainda que não pareça ser motivo de orgulho. A Pesquisa sobre Atitudes Empresariais para Desenvolvimento e Inovação (Paedi), patrocinada pelo Ipea e pelo Cebrap mostrou como representantes de empresas (presidentes, diretores e gerentes) identificaram na inovação - via pequenas mudanças em produtos ou processos - a responsável pela geração de valor e de retorno do investimento.

Pelos argumentos de Shenkar ousaríamos dizer que muitas empresas brasileiras inovam ao imitar, mas nem sempre reconhecem a importância dessa escolha, dado o preconceito existente. Duas evidências da Paedi corroboram essa afirmação: 1) é alto o número de empresas que atribui importância à participação em feiras internacionais, em busca de novas tendências de mercado; 2) várias dessas empresas declararam sua intenção de competir no exterior. Para a economia brasileira, que tenta se livrar da tradição protecionista, a busca de contato e de absorção das práticas mais avançadas é passo essencial para a sua capacitação, diferenciação de seus produtos e salto para um desempenho sistematicamente inovador.

Não há receita milagrosa que leve à inovação. Mesclada com a boa engenharia, com maior investimento nas pessoas e gestão mais avançada, a imitação pode funcionar como peça-chave na elevação do padrão inovador.

No Brasil, o ambiente externo às empresas mudou para melhor nos últimos anos. Há muito ainda a fazer, principalmente na diversificação, desburocratização e ampliação das linhas e programas de financiamento. A universidade pode contribuir ainda mais para que a economia faça da inovação sua principal ferramenta de competitividade pois não há outro meio de elevar o padrão de competitividade da nossa economia, de quebrar a dependência das commodities e de sustentar o crescimento.

Valor 23.6.201o por:
Glauco Arbix é professor do Departamento de Sociologia, USP,
Zil Miranda é doutoranda do Departamento de Sociologia, USP. Ambos são pesquisadores do Observatório de Inovação do Instituto de Estudos Avançados-USP.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Luiz Bersou e Walter Lerner convidam

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Dentro das características de funcionamento do Centro do Conhecimento, você está convidado, a entrada é livre e o endereço é Rua Estados Unidos, número 865/889, estacionamento no local.

Dentro da linha de objetivos do Centro do Conhecimento do Conselho de Administração de São Paulo CRA-SP, entidade aberta a todas as profissões e preocupada com estruturação e sistematização do conhecimento com foco em gestão simplificada e de valor estratégico, estamos desenvolvendo trabalhos interessantes com foco de melhoria de gestão no setor saúde, agricultura de alto desempenho, gestão avançada de recursos humanos, como exemplo, entre outros. Nestes temas estamos focando “Competitividade”.

Dentro do lema “Inovação e Competitividade”, meta dos trabalhos do Centro do Conhecimento, estamos dando mais dinâmica às questões da “Inovação”, através de uma série de palestras sobre esta questão tão importante.

Conceituação da Inovação, caracterização dos ciclos econômicos da inovação e seus reflexos nas empresas, os ciclos de inovação de maturação rápida a partir da imersão profunda em clientes, a preparação da empresa para a capacidade de inovação constante e progressiva por meio da construção da cultura voltada para ser vetor da inovação, os conceitos David & Golias como fundamentos do equilíbrio entre capacidade para a inovação e capacidade para lançar a inovação de forma correta no mercado são alguns dos temas que estão em debates.

No próximo dia 17/06/2010, quinta feira, a partir das 18:30 horas teremos evento público com foco em inovação e Gestão Estratégica na Administração de Pessoas. O palestrante será o Dr. Helio Graciosa, presidente do CPqD, que abordará o tema Desafios das Organizações no Século XXI: O Papel Estratégico da Inovação.

O CPqD, Centro de Pesquisas e Desenvolvimento em Tecnologia na área de comunicação é um dos maiores centros de pesquisa do mundo e o principal centro da America Latina. Fica em Campinas, SP.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Grandes empresas têm investido mais em inovação

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Miguel Jorge: "O crescimento da demanda interna e as pressões de custo foram lembrados por 57% das empresas"

As grandes empresas industriais estão investindo fortemente em inovação para o lançamento de produtos e adoção de novos processos produtivos e têm planos de aumentar esse investimento, constatou a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) em sua primeira "Sondagem de Inovação", divulgada ontem. Os resultados da sondagem, feita no primeiro trimestre com pouco mais de 300 das 1,65 mil empresas industriais com mais de 500 empregados, vão de encontro aos temores de "desindustrialização" no Brasil devido à valorização do real e ao aumento de importados.

"As empresas não apenas estão aumentando a produção de sua capacidade instalada como estão investindo para ampliar e modernizar o parque produtivo", resumiu o presidente da ABDI, Reginaldo Arcuri. "Um dos fatores mais notáveis é que 63,7% apontam as exigências dos clientes entre as razões para investir em inovação", disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge. "O crescimento da demanda interna e as pressões de custo foram lembrados por 57%", afirmou.

A revelação, pela sondagem, de que houve inovações tecnológicas em 71,4% das empresas pesquisadas foi interpretada por Jorge e Arcuri como reflexo das medidas de apoio à inovação editadas nos últimos anos, como a Lei do Bem, a Política de Desenvolvimento Produtivo, e instrumentos como o Cartão BNDES. "O conhecimento sobre os mecanismos ainda é o grande problema, é impressionante o desconhecimento dos empresários sobre o que têm à disposição", comentou Arcuri.

A sondagem constatou que 10,5% das grandes empresas lançaram inovações tecnológicas em seus produtos ou nos processos de produção que eram inexistentes no mercado nacional e 13,3% declararam que pretendiam fazer o mesmo no segundo trimestre. Entre janeiro e março, 48,6% das grandes empresas adotaram no processo de produção inovações disponíveis no mercado nacional.

O percentual das que aumentaram investimentos em inovação chegou a 34% e as que mantiveram investimentos somaram 47%. Apenas 12% reduziram o que investiam em inovação. O maior percentual de aumento nos investimentos em inovação foi provocado pela aquisição de máquinas e equipamentos, que aumentou em 47% das empresas pesquisadas.Valor9.6.10

Empresa elege inovação como foco exclusivo

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A Recepta biopharma é uma empresa brasileira de biotecnologia. Mas há uma definição mais precisa, dada por seu presidente, José Fernando Perez.

"Não somos uma empresa que faz pesquisa e inovação. Nós só fazemos pesquisa e inovação", ressalta, dando ênfase ao "só", para amplificar o foco absoluto do negócio.

A Recepta biopharma foi criada em 2005 a partir de uma parceria com o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, dos Estados Unidos, e se dedica à pesquisa e ao desenvolvimento de anticorpos monoclonais para utilização em tratamento da doença. Os anticorpos monoclonais, que vem se mostrando uma promessa na terapia do câncer, são moléculas biológicas com a capacidade de reconhecer e de se ligar a alvos específicos em tumores e estimular uma ação do sistema imunológico direcionadas apenas às células tumorais.

O Instituto Ludwig licenciou para a Recepta a propriedade intelectual de quatro anticorpos. Além deles, a empresa está trabalhando na geração de novos anticorpos de uso clínico e tem sua ação baseada em parcerias com universidades, institutos de pesquisa, hospitais brasileiros e a colaboração de cientistas estrangeiros. O objetivo é criar medicamentos eficientes e tratamentos mais baratos.

Na prática, a Recepta atua como muitas empresas americanas de pesquisa: faz a ponte entre o conhecimento, a pesquisa básica da academia, e o mercado, os laboratórios que irão produzir em escala comercial os remédios a partir das moléculas desenvolvidas e testadas por ela. "Investimentos cerca de R$ 7 milhões por ano", diz Perez. Ele destaca a mudança de cultura ocorrida no país nos últimos dez anos, com mais apoio à inovação e financiamentos públicos, como os da Finep.

"Sem isso, não existiríamos", diz o executivo. O campo de atuação da Recepta são as chamadas fase um e dois das pesquisas de desenvolvimento de fármacos, nas quais a empresa desenvolve e testa moléculas com eficácia comprovada para se tornarem remédios. A fase um é feita com um grupo pequeno de voluntários. Já a dois requer bem mais gente e conta com uma rede de hospitais parceiros. A fase três - a elaboração do medicamento em si para fins comerciais - já ocorre nos laboratórios farmacêuticos.

A Recepta tem um produto em testes avançados na fase dois, aquela na qual busca respostas clínicas dos pacientes para medir a eficácia da droga em itens como o controle da progressão da doença e aumento de sobrevida. Um teste clínico de fase dois leva em média, dois anos e meio. "Somos a primeira e única empresa brasileira neste estágio de pesquisa", lembra Perez. Até 2011, esses testes devem estar concluídos. O mesmo anticorpo está começando a ser testado em outra frente de pesquisa.

Perez acredita que em três anos a Recepta terá um produto pronto para ser negociado com uma grande empresa farmacêutica elaborar e colocar no mercado. Uma vez negociado seu produto, a Recepta recebe um determinado montante para permitir o licenciamento, depois parcelas intermediárias enquanto o medicamento não é lançado e finalmente, royalties. "Trata-se de um negócio com alto nível de incertezas, mas o potencial é muito grande. A população brasileira está envelhecendo e os casos de câncer, aumentando."

terça-feira, 8 de junho de 2010

Indústria farmacêutica precisa investir mais em pesquisa

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"A indústria farmacêutica tem que investir, senão ela morre" diz Jorge Kalil, diretor do Instituto do Coração

Depois de sofrer com a abertura comercial nos anos 90, a indústria farmacêutica brasileira tem recuperado sua força, mas ainda encontra um dos seus maiores desafios no desenvolvimento da pesquisa. O Ministério da Saúde investiu R$ 700 milhões nos últimos cinco anos com a contratação de 3 mil projetos de inovação. O valor ainda é baixo comparado ao Produto Interno Bruto (PIB) do país, de cerca de R$ 3 trilhões, mas é um começo importante, avaliam especialistas presentes ontem no seminário "Caminhos para o financiamento e acesso à saúde", promovido pelo Valor em parceria com a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).

O déficit comercial do setor é de quase US$ 3,5 bilhões. Mundialmente, a média de investimento em inovação da indústria farmacêutica alcança 21% de sua receita, enquanto outros setores investem cerca de 5%. "Essa indústria tem que investir, senão ela morre", diz Jorge Kalil, diretor do laboratório de imunologia do Instituto do Coração. Ele chama atenção para o fato de que, apesar do peso do PIB do Brasil no mundo, o país ocupa apenas a 17ª posição em pesquisa clínica de medicamentos, que é a aplicação assistida das drogas em pacientes.

Inovação farmacêutica é um investimento de alto risco, mas que garante retornos expressivos. Kalil conta que para desenvolver um medicamento, é preciso investir aproximadamente US$ 1 bilhão. "De 10 mil moléculas sintetizadas, apenas uma será comercializada", explica. Além do custo ser alto, um problema no mercado brasileiro é que o processo de aprovação de uma pesquisa clínica é muito longo - chega a até 14 meses, enquanto em países desenvolvidos o período é de três a quatro meses.

A concessão de patentes é outro desafio para a inovação farmacêutica que precisa ganhar mais agilidade e dar mais garantias aos investidores, segundo Jorge Ávila, presidente do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). Apesar do marco regulatório do setor ser moderno, Ávila diz que há uma série de restrições à concessão de patentes em biotecnologia que acabam gerando insegurança no mercado. "O processo leva cerca de cinco anos e a demora gera incertezas e inibe as pesquisas."

Segundo ele, manter restrições às patentes faz parte de um pensamento que considera o país mais como um importador de tecnologia do que investidor. Dessa forma, a patente significaria custo, e não incentivo. "Proteger a propriedade intelectual é importante para incentivar o desenvolvimento, e no Brasil há algumas deficiências nessa proteção", diz.

Mesmo com essas dificuldades, há casos de sucesso em investimento farmacêutico no país. Um exemplo é a Recepta Biopharma, empresa de desenvolvimento de pesquisa e testes clínicos de medicamentos para tratamento de câncer. Criada em outubro de 2006, ela é a primeira e até agora única empresa brasileira a conduzir a segunda fase de um teste clínico em pacientes de câncer. A empresa investiu R$ 18 milhões até agora, e neste ano deve investir mais R$ 7 milhões. "É um desafio grande, mas estamos num mercado em crescimento", diz José Fernando Perez, diretor da companhia.

Egresso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ele conta que um dos pontos importantes para desenvolver a inovação no setor é haver interação entre o universo acadêmico e a indústria. "Essa ponte ainda é muito incipiente no país", diz Perez.

Reinaldo Guimarães, secretário de Ciência do Ministério da Saúde, lembra que o setor farmacêutico está entre os seis estratégicos da política industrial brasileira. O próprio governo tem interesse em desenvolver tecnologia para reduzir os seus gastos com medicamentos, que hoje representam 13% do orçamento do ministério.

Segundo ele, há 17 acordos já assinados em cooperação com o setor privado para transferência de tecnologia, um investimento de R$ 850 milhões que deve gerar uma economia para o Sistema Único Saúde (SUS) de R$ 150 milhões na compra de materiais.
Valor 08.6.10