quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Há capital disponível para inovadoras

Empresas gestoras de fundos de venture capital estão procurando pequenas e médias empresas inovadoras para investir. Pelo menos, entre os três vencedores da terceira edição do Prêmio Inovar - Stratus, FIR Capital e BRZ Investimentos - há planos de investimento de mais de R$ 500 milhões, nos próximos três anos.
O prêmio, anunciada em novembro, é uma ação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), com participação do BNDES PAR, o braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, para reconhecer gestoras de fundos de venture capital. A disputa foi dividida em três categorias - governança, equipe e operação - e recebeu dez inscrições. O Fundotec II, gerido pela FIR Capital ganhou em Equipe, o fundo Logística Brasil FIP, da BRZ Investimentos, saiu vitorioso em governança e o FMIEE GC, do Stratus, teve destaque em operação.

Para o diretor de inovação da Finep, João De Negri, o prêmio ajuda a consolidar a indústria de capital inteligente no Brasil e mobiliza investidores, gestores e empreendedores em torno da inovação.

O II Censo da Indústria Brasileira de Private Equity e Venture Capital, realizado pelo Centro de Estudos em Private Equity da Fundação Getúlio Vargas (GVCepe) indica que há 258 fundos em operação no Brasil, dirigidos por 144 gestores. No início do ano passado, tinham cerca de R$ 7 bilhões para aplicar no segmento de empresas nascentes, além de pequenos e médios negócios de alto crescimento.

O Stratus tem projetos de investimento de cerca de R$ 500 milhões para os próximos três anos e deve investir até R$ 150 milhões somente em 2012. De acordo com o sócio-diretor Álvaro Gonçalves, com uma carteira de US$ 300 milhões de investimentos sob gestão, o fundo iniciou operações em 2002, voltado para empresas de médio porte. Encerrou o período de investimentos em 2006 e desde 2007 "desinvestiu" praticamente toda a carteira. "Houve um retorno aos investidores equivalente a quase três vezes o capital original."

Os principais investidores do fundo foram o Fundo Multilateral de Investimentos (MIF), braço de investimentos de longo prazo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Finep, o Fundo de Pensão dos Funcionários do BNDES (Fapes), Bovespa, Banco Privado Português e o Grupo Pebb.

O Stratus já investiu em nove empresas, nos setores de software, mídia, telecom e manufatura. Para o executivo, o grupo prefere fazer aportes em companhias de perfil emergente, com o negócio já nos trilhos, e não em startups. Um modelo de organização adequado e um elevado potencial de crescimento também são observados antes da liberação das verbas.

"Observamos nas empresas mais de 40 pontos de análise que determinam o potencial de crescimento e a valorização do patrimônio por meio da abertura de capital ou da venda de participação em um período de três a cinco anos", diz. Recentemente, o Stratus deu início a um novo período de investimentos. Em novembro, anunciou um aporte de R$ 55 milhões na Maestro, empresa de terceirização de frota de veículos de São Paulo. A companhia tem 2,4 mil veículos mas, com o montante recebido, planeja chegar a 18 mil automóveis nos próximos cinco anos.

Em setembro, o Stratus também fechou a compra de uma participação acionária na Mar & Terra, que cria peixes em cativeiros no Pantanal e na Amazônia. O aporte, estimado em R$ 25 milhões, faz parte da carteira do fundo de tecnologia limpa do fundo. Com sede em Itaporã (MS), a Mar & Terra quer quintuplicar a capacidade de produção, atualmente entre sete e oito toneladas de peixe ao dia, melhorar a distribuição e exportar.

O Stratus também fez injeções na Amyris, fornecedora de produtos químicos renováveis a partir da cana de açúcar, e na Unnafibras, que transforma garrafas PET em fibras de poliéster. Depois de investir em uma companhia, a meta é dar suporte ao crescimento, expandir a equipe gerencial e oferecer acesso a treinamento, além de implantar ações de governança corporativa, segundo Gonçalves.

"Os negócios de médio porte apresentam maior atratividade na relação risco-retorno e também uma grande densidade estatística, permitindo seleção e diversificação para as carteiras dos fundos."

O FIR Capital, gestor de fundos de venture capital para investimentos em empresas nascentes, emergentes e em expansão, investiu em sete negócios em 2011. A lista inclui a rede de clínicas oncológicas Oncoclínicas; a ABC, de material de construção, e a Devex, que desenvolve tecnologia de gestão para operações de minas.

"Nossos maiores investidores são fundos de pensão brasileiros como o Previ, do Banco do Brasil , a Petros, da Petrobras, e o Funcef, da Caixa ", diz o sócio Marcus Regueira. "Investimos em pequenas e médias empresas com faturamento anual de até R$ 150 milhões e potencial de crescimento acelerado. Estamos levantando um terceiro fundo para investimento."

A BRZ, fundada em 2005 a partir de um spin off da GP Investimentos, administra mais de R$ 3,4 bilhões, distribuídos em fundos multimercados, de crédito, renda variável e private equity. Com um patrimônio de R$ 462 milhões, o fundo Logística Brasil da gestora investe no setor de logística, principalmente em centros de distribuição, terminais portuários, armazéns e gasodutos. O período de aportes foi encerrado em julho de 2010 e o fundo encontra-se totalmente investido.

Por Jacilio Saraiva | Para o Valor, de São Paulo

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Demanda por recursos na Finep soma R$ 9 bi

Glauco Arbix, presidente da Finep: 70% do aumento da demanda vem de cinco setores, o pré-sal entre eles

Microfones instalados na cabeceira da pista de testes da Embraer em Gavião Peixoto, no interior paulista, são capazes de captar o barulho de aviões que pousam e decolam inúmeras vezes. O processamento desses dados acústicos permite aos engenheiros mapear os pontos de ruído e, dessa forma, poder desenvolver aeronaves silenciosas.

Longe dali, em Tomé-Açu, no Pará, a Natura acaba de concluir a experiência de cultivar palma em sistema agroflorestal. A certeza da viabilidade econômica e sustentabilidade do novo processo de cultivo de um produto tradicionalmente obtido em sistema de monocultura leva a empresa a um salto tecnológico na obtenção do óleo de palma usado nos sabonetes.

Não é de hoje que projetos como o da Embraer e Natura são financiados pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), uma empresa pública ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). A novidade é o aumento do apetite das empresas instaladas no Brasil por financiamento nessa área.

O tamanho da carteira de pedidos de crédito para a inovação chega ao fim deste ano a R$ 9,13 bilhões. É um volume quase cinco vezes maior que o registrado no início do ano, segundo o presidente da Finep, Glauco Arbix. Até este ano, conta ele, os técnicos da Finep se frustravam com a falta de interesse das empresas no desenvolvimento de projetos inovadores. Se antes sobravam recursos para linhas de crédito nessa área, agora a Finep se preocupa com a necessidade de ganhar mais fôlego para poder atender às novas demandas.

Um passo nesse sentido será dado hoje, em Brasília, quando será anunciado pelo MCT a criação de um programa voltado às pequenas empresas. Com recursos da Finep e Sebrae, que somarão R$ 270 milhões, acordos com agentes regionais ajudarão no processo de descentralização.

O crescimento de demanda por recursos para inovação tecnológica pode ser a força que a Finep, que surgiu há 44 anos no Rio de Janeiro como empresa de fomento, precisa para se transformar em instituição financeira, como é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Arbix, que, em parte, afastou-se da área acadêmica para comandar o Ipea antes de assumir a presidência da Finep, em fevereiro, garante que em 20 anos de trabalho na área de pesquisa não havia visto antes a iniciativa privada tão interessada na inovação.

O total de recursos liberados dobrou em quatro anos, passando de R$ 516 milhões em 2006 para R$ 1,2 bilhão em 2010. Mas o que mais chama a atenção é que o total vai alcançar este ano um avanço de 56%, chegando a R$ 1,87 bilhão. "Volumes como esse eram impensáveis há cinco anos", diz. Segundo ele, se a demanda por inovação desponta num momento em que a economia se retrai é porque os empresários estão voltados para o futuro. "Quem investe em tecnologia está pensando no longo prazo."

Há um ano, quando a carteira de pedidos não chegava a R$ 2 bilhões, a média de pedidos de crédito por projeto girava em torno de R$ 11 milhões, afirma. Os volumes passaram para médias de R$ 40 milhões, com casos de mais de R$ 70 milhões nas linhas requisitadas pelos investidores do pré-sal.

Os investimentos em pesquisa na camada do pré-sal ajudaram a elevar a demanda por linhas de financiamento. Segundo Arbix, 70% da carteira de pedidos, hoje em R$ 9,13 bilhões, se concentra em cinco áreas: energia (que engloba as pesquisas do pré-sal e bioetanol), saúde, aeroespacial, tecnologia da informação e defesa, incluindo aí não apenas o setor militar como a parte da economia sustentável, com trabalhos voltados para o clima e redução de consumo de energia.

As áreas que se destacam no portfólio da Finep servem também para mostrar que, além de ter perdido o medo do desenvolvimento local, o setor produtivo brasileiro se volta para novas vocações.

As linhas oferecidas pela Finep são atrativas, com taxas de juros que podem chegar a 4% ao ano, com prazos de até três anos de carência e dez anos para a amortização do principal. Além disso, a empresa pública também conta com linhas que podem conter recursos não reembolsáveis. Uma parte desse dinheiro segue para as pesquisas em universidades. Na carteira da iniciativa privada da Finep aparecem empresas como Vale Soluções, Braskem, Weg e Totvs.

A Natura tem usado diversas modalidades de linhas, incluindo recursos não reembolsáveis. Mas para a gerente de gestão e redes de inovação na Natura, Luciana Hashiba, a maior vantagem em linhas dessa natureza é poder contar com especialistas que "entendem de inovação". Ainda entusiasmada com os resultados da experiência no Pará, que foi apelidada de "projeto dendê", a executiva conta que a empresa acaba de ter liberado pela Finep um projeto para a pesquisa de ativos da biodiversidade brasileira, que serão usados para o tratamento de pele.

O projeto dendê, que começou em 2007, envolvendo famílias de agricultores, passará, agora, para a fase de busca de escala. Hashiba diz que a empresa tem buscado aumentar a liberação de créditos. "Entendemos que o governo deu um sinal claro de que acredita na inovação como papel importante no crescimento do país", destaca.

Frederico Curado, presidente da Embraer, se entusiasma com a tendência de crescimento dos investimentos em inovação. "Às vezes as verbas até sobram, porque não há tantas ideias", destaca. Para o executivo da empresa que circula com frequência na carteira de pedidos da Finep, as companhias podem hoje usufruir de recursos para a pesquisa aplicada, com chances de inovar até mesmo em projetos que às vezes nem sabem quando efetivamente vão usar. Segundo ele, apesar do rigor na aprovação dos projetos - compreensível, diz, tratando-se de uma empresa que lida com recursos públicos - o tempo de liberação tem diminuído.

Curado sente, no entanto, no Brasil, a falta de sistemas mais simples, capazes de agregar, por exemplo, toda uma cadeia de fornecedores e pequenas empresas às gigantes, que normalmente conseguem crédito mais facilmente. "São aperfeiçoamentos que podem ser feitos, como se vê hoje no exterior", diz.

Para o presidente da Embraer, um movimento nesse sentido depende, sobretudo, de adaptações na legislação brasileira. "As leis brasileiras são menos flexíveis do que no exterior, o que dificulta nos casos em que uma empresa começa um projeto e no meio do caminho percebe que precisa de alguma alteração", diz. A simplicidade dos processos, acrescenta Curado, ajudaria o Brasil a se aparelhar para a "inovação em grande escala". Para ele, a democratização do acesso à pesquisa aplicada só tende a ajudar o país. "Porque inovação só serve se servir à sociedade."

Por Marli Olmos | De São Paulo - Valor

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

EMC investe em polo de pesquisas em universidade

Brian Gallagher, da EMC: foco na contratação do gerente-geral e de outros funcionários para o centro, cuja construção foi iniciada semana passada

A EMC Corporation, dos Estados Unidos, planeja concluir a construção de um polo de pesquisas no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, capital fluminense, até o primeiro semestre de 2013. A companhia prevê investir US$ 100 milhões no país nos próximos cinco anos, sendo que cerca de metade desse valor será destinada à construção -iniciada semana passada - e início da operação do centro de pesquisas. Está previsto também em contrato a aplicação de US$ 1,8 milhão por ano, nesse período, para o desenvolvimento da UFRJ e de projetos em parceria com o Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes). O restante será empenhado para reforçar a capacidade de vendas, serviços e fabricação no país, por meio das parcerias com a Foxconn e com o Instituto El Dorado.

O terreno que abrigará o polo será alugado por 20 anos, com a possibilidade de renovação do contrato. A companhia - que atua na área de tecnologia da informação com foco no armazenamento de dados - não revela os valores negociados pelo imóvel.

O presidente da divisão de armazenamento de dados da EMC para empresas, Brian Gallagher, afirmou ao Valor que a companhia ainda não contratou ninguém para trabalhar no centro de pesquisa e desenvolvimento, nem mesmo o executivo que comandará as operações no Rio. "O foco principal agora é, obviamente, contratar o gerente-geral para as instalações, assim como outros funcionários-chave", explicou. "Nesta visita [ao Brasil] entrevistamos candidatos em potencial". Em novembro, a vice-presidente e diretora de tecnologia da companhia, Patrícia Florissi, disse ao Valor que estava difícil encontrar um executivo que aliasse o conhecimento acadêmico à experiência com o mundo das empresas. Para o quadro geral, deverão ser contratados 50 funcionários.

A EMC investe, em média, US$ 2 bilhões por ano em pesquisa e desenvolvimento no mundo. Além do centro no Rio, a companhia tem polo de pesquisas na Índia, na China, na Rússia e em Israel.

O polo de pesquisas no Rio será voltado principalmente para a aquisição, análise, colaboração e visualização de dados sísmicos gerados pela indústria de petróleo e gás. Será o primeiro da EMC direcionado a esse segmento. Segundo Gallagher, a EMC planeja abrigar nessas instalações um centro de pesquisa aplicada, laboratórios de soluções e um espaço dedicado a reuniões e conferências para executivos.

"Acreditamos que o que vamos fazer aqui poderá ser aplicado em outras indústrias como ciência e serviços de inteligência e de finanças", disse Gallagher. A EMC tem cerca de cem clientes no país, com destaque para a Petrobras.

Gallagher calcula que a companhia vai crescer 16% em 2011, comparado ao ano passado, com investimentos de US$ 19,8 bilhões em todo o mundo.

O vice-presidente da companhia, Joel Schwartz, afirmou que ao escolher o Rio para sediar o primeiro centro de pesquisas na América Latina, a EMC não olhou apenas a economia brasileira. Ele destacou a Copa do Mundo e a quantidade de contratos que precisam ser cumpridos até a data dos jogos: "É muito importante para nós estarmos prontos para atender o mercado da América Latina."

Por Marta Nogueira | Do Rio / Valor 13.12.2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

'Open innovation' desafia as empresas

Henry Chesbrough, da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley:
"Foi a prática cotidiana que me mostrou o caminho"

O site de uma das mais prestigiosas revistas científicas do planeta, a britânica "Nature", traz já há algum tempo uma série de desafios dentro de um programa de inovação aberta. São US$ 25 mil para quem apresentar um projeto capaz de reduzir custos de aplicação de vacinas para pólio em países de renda média ou baixa. O desafio foi postado no dia 10 de novembro e o prazo final para envio de propostas é 20 de janeiro. Um centro de pesquisas oferece US$ 10 mil para quem desenvolver linhas de células ou animais para pesquisas sobre cordoma, um tipo de câncer ósseo que raramente reage a quimioterapia ou radioterapia. Qualquer pessoa de qualquer parte do mundo pode participar. E os prazos para envio de propostas costumam mesmo ser reduzidos, variando de 3 a 6 meses. Rapidez é uma característica essencial da chamada open innovation, ou inovação aberta.

Esse modelo vem causando furor em alguns setores, principalmente porque reduz os custos de P&D para empresas e acelera a introdução e aceitação de inovações no mercado, já que é capaz de estar antenado com os desejos e necessidades do consumidor durante todo o processo. Pequenas e médias empresas, com poucos recursos para investir em P&D, também aparecem como beneficiárias desse modelo de gestão de inovação.

Além disso, abre as portas do mercado de trabalho para jovens com ideias criativas, mesmo que seus projetos ainda não estejam suficientemente maduros para decolar - a empresa que lança o desafio e acolhe a proposta se encarrega de viabilizá-lo. Especialistas reunidos em São Paulo para a 4ª edição do Open Innovation Seminar veem nessa nova forma de gestão da inovação uma alternativa viável para o Brasil, cujo crescimento econômico se ressente da crônica falta de investimento empresarial em P&D e da falta de mão de obra especializada.

"Foi a prática cotidiana que me mostrou o caminho", conta Henry Chesbrough, professor da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley, e criador do conceito de inovação aberta. Chesbrough trabalhava numa pequena empresa de informática, a Quantum, que conseguia competir com a poderosa IBM, detentora da patente de um sistema de disk drive que ela não vendia para a concorrência. A IBM, claro, tinha investido milhões na contratação de PhDs, na montagem de laboratórios de ponta e guardava ciosamente sua patente. O produto semelhante desenvolvido pela Quantum invadiu o mercado.

"A lógica da open innovation é darwiniana. Quem sobrevive, na natureza ou no mercado, não é o mais forte, mas aquele que melhor se adapta ao ambiente e o ambiente econômico hoje é o de mudanças e inovações aceleradas. Nesse novo ambiente, as empresas grandes, presas ao modelo convencional de P&D, se movem com a lentidão de um dinossauro pesadão", compara.

No modelo convencional, uma inovação que apareça no processo de pesquisa pode ser patenteada e encostada, porque não atende às prioridades da empresa. No modelo de inovação aberta, essa inovação é disponibilizada para aquelas que possam aproveitá-la eventualmente. Nesse tipo de gestão, a empresa integra recursos internos e externos tanto no P&D, como na colocação do produto no mercado, formando uma rede de inovação que pode incluir centros de pesquisa - inclusive de universidades - clientes, fornecedores, startups e até os concorrentes.

"O Brasil, por exemplo, tem uma oportunidade única no caso do etanol, mas ao invés de compartilhar essa tecnologia com outros países e efetivamente ser líder mundial num setor inovador, mantém o conhecimento para si. A abertura do conhecimento não é abrir mão dele, mas expandir sua liderança", exemplifica.

De acordo com Henry Chesbrough, o Brasil vive um momento econômico fantástico e tem uma oportunidade única para atrair a melhor tecnologia do mundo, absorvê-la e realmente ocupar uma posição internacional de destaque. "Este é o momento de correr risco, já que os países que tradicionalmente eram líderes mundiais não o são mais, estão mergulhados em crises econômicas. O que falta ao Brasil hoje é confiança no processo de inovação", afirma. O país, segundo ele, passou anos mergulhado no combate à inflação e investindo muito pouco em inovação, praticamente restrita ao ambiente acadêmico. "O que se percebe agora é um país com vastos recursos naturais e sem know-how, que precisa urgentemente de mais iniciativas e atividades no setor, algo que poderia receber forte incentivo governamental.


Por Ruth Helena Bellinghini | Para o Valor, de São Paulo

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cinco empresários contam como ganham dinheiro com a inovação

Melhoria e desenvolvimento de novos processos e produtos, ajudou empresas a ganhar destaque no mercado

Um dos países mais empreendedores do mundo, o Brasil é também um dos menos inovadores. Segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), relatório que mapeia o nível de empreendedorismo de 59 países, o Brasil está em último lugar do ranking de inovação que analisa empresas com até 42 meses de vida.

Entre os problemas que geram esse cenário está a crença de que inovar está somente em criar algo totalmente novo, envolvendo grandes investimentos em tecnologia. No entanto, a inovação pode estar em ações simples que resultem na melhoria de processos, produtos e serviços de forma que a empresa ganhe competitividade frente à concorrência. “Não adianta fazer a mesma coisa que o concorrente, as empresas devem encontrar uma forma de se diferenciar”, diz o coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV-EAESP, Tales Andreassi.


Foi o que fizeram os cinco empreendedores abaixo. Entre pequenas e grandes inovações, eles conseguiram fazer diferente e, com isso, ganhar espaço no mercado, mostrando que inovar pode ser bem menos complicado do que parece.

Augusto Cesar Neto, Aatag

No que depender dos sonhos de Augusto Cesar de Camargo Neto, de 36 anos, a palavra Aatag vai fazer parte do vocabulário de todo mundo em breve. Isso porque ele espera que, em um futuro próximo, cada pessoa carregue consigo o adesivo desenvolvido por ele para "digitalizar o mundo real". A inovação, consiste em um adesivo que pode ser colado no celular, no chaveiro ou onde quer que seja. Lá estarão armazenadas todas as informações sobre aquele consumidor, desde o e-mail até seus hábitos de compra.

Ao mesmo tempo, cada loja do mundo terá um leitor de dados capaz de capturar as informações contidas no adesivo do cliente. A invenção permitirá, por exemplo, que não seja mais necessário ditar o número de um CPF cada vez que o cidadão quiser pedir uma Nota Fiscal Paulista ou se cadastrar na entrada de um edifício comercial. “Também será possível passar por uma vitrine, gostar da roupa que está ali e dar seu e-mail para que a loja mande para a casa do consumidor o catálogo completo de sua coleção. Mas isso tudo sem perder tempo: bastará encostar o adesivo no leitor que fica instalado na fachada”, explica Neto.

Para as empresas, o grande benefício do adesivo da Aatag é a possibilidade de capturar dados sobre seus clientes de forma muito ágil. E para os consumidores, além da praticidade, a vantagem é usar suas informações como moeda de troca para conseguir benefícios das empresas. “O cliente poderá fazer uma seleção prévia dos dados que quer divulgar e só vai informá-los se a contrapartida que a empresa lhe der for interessante”, afirma Neto.

Os clientes não pagarão nada pelo adesivo. A receita da Aatag virá da venda dos leitores de dados e da gestão das informações dos clientes. Como a tecnologia RFID é barata, estima-se que o leitor possa custar cerca de R$ 20 – o que ampliaria¬ as chances da Aatag espalhar os leitores por aí.

Rafael Cordeiro, Enox

Os amigos e publicitários Bernardo e Ernesto Villela, Gustavo Gasparin e Rafael Cordeiro iniciaram, há oito anos, a operação da Enox, pioneira e líder no mercado de mídia indoor. Inicialmente uma agência de propaganda, a empresa não teve sucesso na concorrência com empresas maiores, o que fez com que os sócios percebessem em poucos meses a necessidade de inovar.

Decidiram, então, que em vez de atuar na criação, se tornariam prestadores de serviços para outras agências.O plano era simples: colocar painéis com peças publicitárias em banheiros de bares e, assim, criar uma nova maneira das empresas se comunicarem com seu público. Com um investimento de R$ 20 mil (R$ 5 mil por sócio), desenvolveram um modelo de painel feito em acrílico e colocaram dentro um cartaz anunciando a própria empresa.

A peça foi instalada no banheiro de um bar em Curitiba, no Paraná, e em uma semana ganhou fama. Logo vieram os clientes e outros modelos de ação, como cardápios patrocinados e campanhas em televisores instalados dentro de lojas e outros pontos de venda. “Nós criamos uma nova indústria, a da mídia de contato, baseada não no conteúdo, mas nas pessoas e lugares onde elas estão.”

Hoje a Enox cresce a um ritmo de 35% ao ano e busca a solução para o mais novo desafio da empresa: descobrir como agregar novas tecnologias ao negócio.

Waldomiro José Fernandes, Versax

Com um produto muito simples em mãos, o engenheiro Waldomiro José Fernandes montou, em 2008, a empresa Versax. Ele desenvolveu um dispositivo que deve ser encaixado entre a lâmpada e o soquete. A rosquinha de quatro centímetros de diâmetro garante que com um toque no interruptor comum seja possível controlar a intensidade da luz, cuja luminosidade poderá variar de 5% a 100%.

A mágica está, justamente, dentro dessa rosquinha. Ela contém um software e funciona como um dímer - com a vantagem de nenhuma parede precisar ser quebrada para instalação. Com o produto, a Versax conquistou grandes clientes, como Tok & Stok e Center Castilho. "O meu trunfo foi ter algo diferente para apresentar aos varejistas", constata Fernandes.

Como a produção é quase artesanal, a Versax vendeu só 6 mil peças em um ano e meio, faturando cerca de R$ 100 mil. Mas para atingir a meta de 1 milhão de peças produzidas por ano, Fernandes decidiu terceirizar a fabricação e as vendas, mas não a tecnologia.

Ismael Akiyama, da Akiyama

A Akiyama, empresa especializada em identificação civil e criminal por meio da biometria, faz parte do pequeno grupo de empresas que já está lucrando com a Copa de 2014. Fundada em 2005 com um investimento de apenas R$ 72 mil, a companhia desempenha atualmente um papel importante no esquema de segurança que o governo federal adotará durante os jogos da Copa. Afinal, é dela a tecnologia usada no projeto “Torcida Legal”.

O programa pretende proibir a entrada nos estádios de torcedores que participaram de algum ato violento em jogos de seus times ou cometeram outros tipos de infrações, como a venda de ingressos falsos. Mas, para barrá-los, o governo precisará utilizar um método de identificação rápido e seguro, já que exigir a apresentação de documentos na entrada dos estádios seria inviável.

Akiyama resolveu esse problema ao inovar e usar a tecnologia para padronizar a coleta de dados por meio da biometria. Com processos informatizados, a identificação poderá ser feita em escala, sem a necessidade de acompanhamento de um perito, com custos mais baixos e de forma mais rápida.

A empresa fechou em 2009, um contrato com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a compra de 1,4 mil máquinas, usadas no recadastramento de eleitores. Foi por meio do projeto para o TSE que a empresa conseguiu pontos na hora de conseguir o contrato do Torcida Legal. A venda de 300 equipamentos para o Ministério do Esporte, além da prestação de serviços de assistência técnica e do treinamento de funcionários, rendeu à Akiyama R$ 3 milhões. O valor corresponde a cerca de 10% do faturamento alcançado pela empresa em 2010 (R$ 29,5 milhões).Hoje a empresa de Ismael cresce em um ritmo de 100% ao ano.

“Nós já identificamos outras oportunidades de negócios com o governo”, afirma o empresário. Atualmente, ele trabalha também no desenvolvimento de outros softwares para monitoramento das torcidas nos estádios brasileiros.

Ely Behar, U/Racer

Ele levou o estilo de vida dos autódromos para o shopping center. Ao apostar no potencial de mercado por trás dos 7 milhões de fãs de automobilismo no Brasil, o empresário Ely Behar criou um modelo de negócio inovador, que em pouco mais de um ano e meio de existência já cresceu 200% e deve fechar 2011 com faturamento até três vezes maior do que o R$ 1 milhão registrado no ano passado.

Com uma loja virtual e duas físicas, a U/Racer reúne artigos para pilotos - luvas, capacetes e macacões - e produtos para fãs do esporte, como camisetas, bonés e até roupas para bebês. “Antes, esses produtos só eram vendidos em eventos de automobilismo, mas com o sucesso das vendas nas lojas, as marcas oficiais já estão até aumentando o investimento nas linhas de produtos para fãs”, conta Behar.

O modelo é pioneiro no Brasil e agradou justamente pelo apelo com o público masculino. Atualmente, 50% do faturamento vem dos artigos para os fãs. “Nós temos boa aceitação para entrar nos shoppings porque conseguimos resolver o maior problema deles, que é atrair os homens”, explica o empresário.

Hoje, a U/Racer é distribuidora oficial de marcas importantes como Ferrari, Sauber e McLaren, e recebe investimento de um fundo. O próximo passo da empresa, releva Behar, é expandir a operação por meio de franquias e, dessa forma, ter 35 lojas da marca até 2015. Desse total, pelo menos dez devem ser inauguradas até o ano que vem, propiciando um faturamento de R$ 10 milhões. “O foco é em cidades com mais de 250 mil homens das classes A e B, o público do negócio”, explica o empreendedor.

Alex Silva/AE

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pequenas querem vender mais para governo

Há 18 anos no ramo de material de construção, o empresário Ricardo Rocha, de Três Rios (RJ), está montando em sua empresa uma área especializada na triagem de licitações. A ideia nasceu após a participação no programa Compra Mais, recém-criado pelo Sebrae-RJ e o governo do Rio, com o objetivo de ampliar a participação das micro e pequenas empresas nas compras públicas. Apesar de responder por 99% dos empreendimentos e empregar mais de 60% da mão de obra do país, o segmento detém apenas 28% das compras feitas pelo governo federal. A baixa participação se repete na administração de estados e municípios.

"Aprendi a participar de pregões on-line e vou contratar uma pessoa só para monitorar oportunidades nas concorrências. Espero elevar em 25% meu faturamento vendendo para o estado e prefeituras das redondezas", diz Rocha, dono da rede Império da Construção.

Capacitação para empresários e gestores

O programa envolve empresários, mas também gestores públicos. O objetivo é conscientizá-los da importância de aumentar as compras de pequenos empreendedores para desenvolver a economia local e divulgar o capítulo cinco da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, que trata especificamente de compras governamentais. Ele estabelece vantagens para o segmento nos pregões - como a preferência em caso de empate e exclusividade em licitações de até R$80 mil - mas só vale se regulamentado por lei estadual e municipal.

"É preciso normatizar para não ficar preso à Lei 8.666 (das licitações) e poder dar tratamento diferenciado às pequenas. No Rio, 75 dos 92 municípios já fizeram isso", diz Cezar Vasquez, diretor-superintendente do Sebrae-RJ.

A meta até o fim do programa, em 2013, é superar a média de 30% e caminhar para que 50% da demanda do estado e de municípios fluminenses seja suprida por micro e pequenos fornecedores. Só o governo do estado movimenta R$8 bilhões por ano em compras. Para coroar o programa, que deve ser replicado em todo o Brasil, será realizada uma grande rodada de negócios nacional. Batizada de "Fomenta", ela já ocorre ao fim de cada capacitação regional.

Em seu primeiro mês de vida, o Compra Mais capacitou 280 empresas e agentes públicos da região Centro-Sul fluminense. Entre outras coisas, eles foram apresentados às exigências burocráticas das compras públicas e aprenderam a operar sistemas de compras on-line, como o SIGA, adotado pelo governo do Rio. Agora, segue para a região do Médio Paraíba.

Grandes eventos vão aquecer do setor público

Dona de uma confecção de uniformes em Petrópolis, Luciane Melo se antecipou à chegada do programa à Região Serrana e participou do programa do Centro-Sul. A empresária nunca tinha disputado uma licitação, mas agora já tem todas as certidões necessárias e inscrições no Petronet, Comprasnet e SIGA, sistemas de compras online de Petrobras, governos federal e estadual. Ela aposta que eventos como a Copa do Mundo vão aumentar a demanda do setor público para seu produto e já estuda ampliar sua capacidade de produção de 40 mil para 60 mil peças por mês.

"Este ano vencemos quatro concorrências e espero chegar a dez em 2012. Tinha dificuldade para me organizar. As exigências são diferentes e variadas de acordo com a licitação", diz Luciane.

(Fonte: O Globo - 18/11/2011)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O reequilíbrio da inovação



A riqueza das nações vem se reordenando a alta velocidade. A atual crise dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o avanço das economias emergentes acelera a reordenação do mapa econômico mundial. Há, no entanto, outra revolução silenciosa em andamento: o reequilíbrio da inovação, em direção aos países emergentes.

A inovação, em particular a empresarial, até pouco tempo atrás era uma história mais voltada ao Ocidente. As multinacionais dos países da OCDE concebiam, produziam e comercializavam os produtos inovadores. Pouco a pouco, instalou-se outro modelo: a inovação continuava sendo concebida no Ocidente, mas cada vez mais era produzida nos países emergentes. É o modelo da Apple com seus iPods e iPads, em parte, produzidos em Taiwan, Coreia do Sul ou China. Agora, estamos vendo emergir um terceiro modelo no qual a inovação, crescentemente, não é mais apenas produzida e comercializada, mas também concebida nos mercados emergentes.

Esse deslocamento provoca uma reordenação acelerada das listas de classificação das maiores empresas do mundo. A lista mais recente das cem maiores empresas de tecnologia do mundo elaborada pela "Bloomberg" e "Businessweek" mostra que 44% são de países emergentes. Mais do que isso, uma delas, a chinesa BYD, lidera a classificação, pela primeira vez, à frente da Apple. Depois da empresa dos EUA, vem outra multinacional chinesa, a Tencent, uma empresa de internet que já é a terceira maior do mundo em valor de mercado, apenas atrás do Google e Amazon, e logo à frente da Baidu, também da China. Entre as dez maiores empresas de tecnologia ainda há duas indianas (Tata Consultancy e Infosys). Chama a atenção o fato de nenhuma ser europeia. Multinacionais de Cingapura, Taiwan ou Brasil despontam em quantidades superiores às escassas alemãs, belgas ou inglesas que conseguiram invadir a lista.

Os EUA ainda são o país com mais empresas listadas na Nasdaq (404), mas o segundo lugar é de um emergente, a China, com 37. Logo atrás, outro emergente, Israel (27). A China tem mais que o triplo de empresas de tecnologia listadas na bolsa do que toda a Europa (11).

As classificações das empresas de tecnologia mais importantes ou inovadoras, realizadas pelo Boston Consulting Group e pela revista "Forbes", contam a mesma história: a Tencent encabeça o ranking das dez maiores da empresa de consultoria, no qual também fazem parte a taiwanesa Mediatek, a mexicana América Móvil, a China Mobile, as indianas Bharti Airtel e Infosys e a sul-africana MTN. Na lista das dez primeiras da revista, além da Tencent (novamente à frente da Apple e Google), também estão a Natura Cosméticos e a indiana Bharat Heavy.

O fenômeno é maciço e abrange todos os setores. Em 2011, a principal fornecedora para a indústria de telecomunicações deixou de ser dos EUA, França ou Suécia: é da China. A partir de Shenzhen, ao lado de Hong Kong, a Huawei chegou à liderança arrebatando as posições da Alcatel e Lucent (que se viram forçadas a promover fusão) e, mais recentemente, da Ericsson. A sul-coreana Samsung encabeça o ranking de 2011 de maior receita mundial no setor de tecnologia, à frente da Hewlett-Packard (HP), dos EUA. Em 2010, a empresa investiu mais em pesquisa e desenvolvimento do que Intel, Google ou Cisco. O sistema de pagamentos na internet do site chinês Alibaba já é o maior do mundo em termos de valor das transações: a empresa de comércio eletrônico, na qual o fundo californiano Silver Lake acaba de entrar, tem valor de mercado de US$ 32 bilhões, quase o dobro da capitalização do Yahoo (dono de cerca de 40% do Alibaba).

O Brasil é um dos países em que mais se usam redes de relacionamento social na internet, como Twitter, bem à frente dos EUA. O serviço de bate-papo virtual da Tencent possui quase 700 milhões de pessoas registradas, equivalente a todos os usuários do Facebook. A velocidade do fenômeno chama a atenção: tudo isso ocorreu em menos de dez anos.

O mundo da internet tradicionalmente é dominado por multinacionais dos Estados Unidos. A Tencent, entretanto, já exibe capitalização de mercado de US$ 45 bilhões, à frente da eBay e Yahoo. Em Moscou, o russo Yuri Milner vem revolucionando as regras dos capitais de risco para o setor digital, dominado até agora por fundos californianos. Sua Digital Sky Technologies (DST) é dona da mail.ru, listada na Bolsa de Valores de Londres com valor superior a US$ 8 bilhões. Seu fundo de capital de risco é um dos poucos que possui participações no Facebook, Zinga e Groupon.

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A chinesa Tencent (que possui 10% da DST e comprou empresas iniciantes, como a Riot Games, dos EUA, por US$ 400 milhões) lançou também seu fundo neste ano, o Tencent Industry Win-Win Fund, com US$ 760 milhões, para ampliar a compra de empresas em fase inicial de operações. Por sua parte, o conglomerado chinês Alibaba Group Holdings lançou o seu por meio da filial Taobao, com US$ 46 milhões. A Legend Capital, por sua parte, proprietária em parte da Lenovo (na qual possui participação de 42%) levantou outro fundo tecnológico, com €500 milhões, neste ano. Em Cingapura, a Singtel, operadora de telecomunicações, criou em 2011 seu fundo de capital de risco, com mais de US$ 250 milhões, para também expandir as compras de empresas de tecnologia com projetos iniciantes.

Todas essas iniciativas mostram, caso ainda seja necessário, quanto os países emergentes asiáticos vem apostando para ganhar um lugar cada vez maior no mundo do capital de risco e de fornecimento de capital inicial para novas empresas.

Em 2011, os EUA ainda são o país com mais empresas listadas na Nasdaq (404), mas o segundo lugar já é ocupado por um país emergente, a China, com 37. Logo atrás, outro emergente, Israel (com 27). A China tem mais que o triplo de empresas de tecnologia listadas na Nasdaq do que toda a Europa (apenas 11).

O fenômeno não é exclusivamente asiático. O caso da Naspers, multinacional sul-africana do mundo digital, é emblemático: a empresa obtém mais de 70% de sua receita no continente africano, mas multiplicou as aquisições nos mercados emergentes. Possui participação de 45% na Tencent, que comprou em 2011 e já se valorizou mais de 3.100%. Também investiu na russa mail.ru (US$ 390 milhões) e possui 91% da brasileira Buscapé (que comprou por mais de US$ 390 milhões). No Leste Europeu, comprou a Tradus por mais de US$ 1 bilhão em 2008. Atualmente, a Naspers é uma das maiores investidores em empresas em fase inicial de operações em emergentes. Está presente em 129 países e tem receita em torno a US$ 4 bilhões e 12 mil funcionários.

Esses exemplos refletem as alterações do mundo em que vivemos. No futuro, esses grupos e países ganharão lugar (cada vez maior) em todos os âmbitos e setores, incluindo os de tecnologia e de maior inovação. Essa talvez seja uma razão a mais para interessar-se e estar presente nessas economias, onde já não apenas se produz e comercializa inovação, mas também se cria, algo que até agora era exclusividade dos países da OCDE. (Tradução de Sabino Ahumada)

por Javier Santiso, professor de economia na Esade Business School
Valor 18.11.2011